Textos para o programa
Soirée Stravinsky:
Peças de Igor Stravinsky (1882-1971) em arranjos para toy instruments de
José Eduardo Rocha
Valse
pour les Enfants (pour les
petits lecteurs du “Figaro”) – Esta Valsa de Stravinski foi composta
para piano em Morges (1917) e foi pela primeira e, até agora única vez,
publicada no “Le Figaro” em 21 de Maio de 1922. Pode ser vista como uma
companheira das peças Os Cinco Dedos (Oito Miniaturas Instrumentais).
O baixo é um ostinato de dois compassos que só usa 5 notas, mas a
melodia no soprano é constituída por 13 notas num âmbito intervalar de 11ª.
O meu arranjo, entre outras coisas, faz repetir a valsa várias vezes, com
diversos instrumentos, ora na melodia ora no acompanhamento, como um realejo
perpétuo.
Danse – A “Danse” começou por ser a primeira das Três
peças (sem título) para quarteto de cordas - a única obra
que Stravinsky escreveu para quarteto de cordas -compostas em Salvan em 1914. Em
1928, o autor decidiu incluir estas três peças nos Quatro Estudos para Orquestra
(acrescentando o 4º, Madrid, e ao primeiro atribuindo-lhe o título
de Danse). A sua melodia, confinada a um tetracorde (sol, lá, si, dó),
é hoje vista como a percursora de uma longa série de melodias populares
russas, que Stravinsky difundiu durante os anos 1914-17. Muito do material
originalmente contido nas Três Peças provou-se germinal. O tipo de
melodia da Danse, por exemplo, tornou-se o arquétipo para temas da Sinfonia
em Dó ou das Danças Concertantes. A Danse foi desde 1991 uma
das peças do reportório para instrumentos de plástico do Ensemble JER, mas
sempre com diversos arranjos consoante o número de elementos que o compunham.
Oito
Miniaturas Instrumentais (Os
Cinco Dedos) – O arranjo para plásticos desta Oito Miniaturas baseia-se
na versão original – as oito melodias muito fáceis com cinco notas para
piano – compostas em Garches (Fev. 1921) e publicadas em 1922 com o título Os
Cinco Dedos; e não na versão que em 1961 (há 40 anos) Stravinsky começou
a orquestrar para um ensemble de 15 músicos, tendo nessa situação alterado a
ordem, as tonalidades e até recomposto algum material, e que passou a chamar-se
Oito Miniaturas Instrumentais. No meu arranjo, que mantém a ordem
original das peças para piano – demonstrativas de várias facetas dos períodos
russo e neo-clássico do compositor – tentei contrastar as peças com os
instrumentos obligatto do Ensemble JER e imaginando-as como se Stravinsky
as tivesse mesmo concebido para toy instruments (o uso da versão
original também se deve ao facto de as suas tonalidades se prestarem mais à
adaptação para plásticos). Assim o instrumento protagonista em cada miniatura
segue esta ordem quase organologicamente demonstrativa: violino Chicco (Andantino),
clarinete Antonelli (Allegro), flauta Allegro (Allegretto), clarina Hohner (Larghetto
e Moderato), melódica alto (Lento e Vivo), melódica soprano (Pesante).
Tango – Esta pequena mas atractiva dança foi a primeira peça
que Stravinsky compôs nos Estados Unidos, quando para lá emigrou durante a
segunda guerra mundial. Originalmente para piano, foi escrita em Hollywood em
1940 e parece modelada no mesmo estilo do Ragtime composto na Suíça no
fim da primeira guerra (em 1918).
Com a intenção de
manter um ininterrupto discurso sincopado – e só ocasionalmente com o
característico ritmo de tango – a música mantém-se num inalterável quaternário,
e numa inalterável quadratura (os parágrafos musicais são sempre em unidades
de oito compassos, 88 compassos ao todo para uma duração total de 4 minutos, o
que exige um metrónomo de 88). A sua forma segue o esquema : A (introdução) - B (grupos temáticos
Bi, Bii, Biii, Bii, Biii) - C (trio Ci, Cii) - B (Bi, Bii) - A (coda com o mesmo
material da introdução).
Porque não é uma peça idiomaticamente
pianística, e porque Stravinsky esperava que esta peça fosse explorada de várias
maneiras, o Tango foi instrumentado várias vezes. Primeiro por Felix
Guenther (orquestração aprovada pelo compositor), depois pelo próprio autor
em 1953. Em projecto ficou a possibilidade de um arranjo para Dance Band e outra
como canção popular. Também existe uma versão para violino e piano feita por
Samuel Dushkin, mas segundo Eric Walther White nunca foi publicada.
Ocasionalmente ouvem-se outras versões (nomeadamente para dois acordeões).
Para mim, o Tango relaciona-se em termos de sentimentalismo irónico com
o Pesante das Oito Miniaturas Instrumentais; esse aspecto acabou por se
reflectir tanto no arranjo (feito a partir da partitura original para piano),
como no alinhamento do programa.
Gestures
I for Wind Instruments - Christopher Bochmann (1950)
Por volta de 1981, em consequência da
actividade de dirigir ensembles de alunos, no Brasil, C. Bochmann começou a
realizar experiências na área da improvisação controlada. Daí surgiram
quatro peças com o nome de Gestures (Gestos) cujo controle composicional
sobre a execução era mínimo (Estas peças estiveram na origem de outras como
as Aleafonias de carácter concertante). Resta acrescentar que nestas peças
não são só os músicos que improvisam, mas também o maestro ou quem estiver
a dirigir, o que as torna pedagogicamente muito interessantes. Quando trabalhei
com Bochmann recentemente na ESML, pedi-lhe para interpretar esta peça com
arranjos meus, o que fiz com o grupo Estgad Varèse (25 elementos) nas Caldas da
Rainha em Maio de 2001 e agora com o Ensemble JER.
Gestures I foi destinada a instrumentos de sopro (as outras são para coro, cordas
e orquestra) e foi escrita em Brasília em 22/1/82.
Quarteto
op. 4
(versão para o Ensemble JER) - José Eduardo Rocha (1961)
Desde Agosto de 2000 (quando vi o Quarteto Auer no
Estoril) que desejava compor uma peça que explorasse o ritual do quarteto clássico
- ou seja os 4 músicos sentados numa disposição musical e acústica
institucionalizada - mas que ao mesmo tempo fosse musicalmente abstracta (isto
é, que evocasse as grandes formas e géneros da história da música ocidental,
como o provam os andamentos do meu Quarteto). A versão original é realmente
para o tradicional quarteto de cordas, mas como gostasse do texto musical em si
próprio (onde tinha aplicado um método de composição recentemente
descoberto) e tivesse desejo de o ouvir rapidamente, decidi adaptá-lo à nova
formação do Ensemble JER, todavia conservando as alusões ao quarteto clássico.
Os quatro músicos desempenham respectivamente os papeis de 1º Violino (flauta
Allegro Hohner), 2º Violino (clarinete Bontempi/violino Chicco), Viola ou Alto
(melódica alto Hohner) e Violoncelo (clarinete baixo). Desde 1999 que comecei a
catalogar as minhas novas composições com o número de opus,
sendo que toda a produção anterior desde 1989 – e que inclui a maior parte
do reportório para plásticos e de teatro musical – passou a ser classificada
pelo título da obra, cronologicamente, mas sem númeração de opus. Isto prende-se por um
lado com o facto de ter começado a compor para formações clássicas, e por
outro, a ter iniciado com o novo milénio um novo período de criação. O
Quarteto foi escrito entre 23/11 e 23/12 de 2000, logo após ter levado o meu
espectáculo Volkswagner à Expo Hannover, em Outubro, com o Ensemble JER (14
elementos).
Extra programa:
Inflorescência I -
Fernando Lopes Graça (1906-1994)
As Três Inflorescências de Lopes Graça foram editadas pela
Musicoteca em 2000. Isso facilitou o acesso a uma partitura que foi escrita em
1973 (“de velhos apontamentos”)
para violoncelo solo e dedicada a Clélia Vital que a gravou em disco. Mas foi
ao ouvi-las interpretadas por Paulo Gaio Lima (em 17/12/00, no Museu Verdades de
Faria), que me entusiasmei outra vez por elas, o que me levou a adaptar a
primeira para melódica alto para eu próprio a tocar a solo.
Menuetto – Carlos Marecos (1963)
Peça dedicada ao
Ensemble JER, foi escrita em 1994 para os instrumentos mais emblemáticos do
grupo, e constitui a primeira, e até agora mais conseguida, proposta para plásticos
da autoria de um compositor exterior ao Ensemble JER. A forma da peça segue o
esquema do minueto clássico (A, A, B, B, trio (a, a, b, b), A, B), mas no seu
conteúdo faz uso de algumas técnicas seriais, apesar do compositor advertir na
introdução da partitura que qualquer semelhança com uma escrita dodecafónica
estilística será pura coincidência. Além de tudo (e pensando no espírito
do Ensemble JER), o autor imprimiu uma carga humorística e irónica no
tratamento e combinação das séries, o que está mais ou menos explicado pelo
subtítulo que acompanha o Menuetto: “A prima, os primos e o amigo da
prima”.
Carlos Marecos nasceu em Lisboa, estudou na Academia de Amadores de Música e na
Escola Superior de Música onde se licenciou em Composição no fim do século
XX. Actualmente é professor em vários conservatórios e academias e obteve por
duas vezes o prémio de composição Lopes Graça (1999 e 2000). É autor de um
significativo catálogo de obras para diversas formações vocais e
instrumentais, algumas resultado de encomendas, outras já editadas em partitura
ou em suporte discográfico.
JER. 31/7/01- 18/9/01
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