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Cozido
à Portuguesa
(Portuguese
Masterpieces)
Festival
Escrita na Paisagem - Sines
26 Julho 2006, Centro
de Artes, 19h00
Teatro
Nacional D. Maria II, Lisboa
28, 29, 30
Set., 1, 6,7 e 8 de Out. 2006, 19h00

Soprano Ana Sacramento (foto Ricardo Amaral)
Em 2006, o Ensemble JER
apresenta-se com um programa
exclusivamente constituído por obras-primas de autores portugueses dos
séculos XVII, XVIII e XXI:
Andrade, Cardoso, Melgás, Seixas, Rocha e
Ribeiro.
Uma interpretação livre, fantasiosa e humorística da história da
música lusitana,
sob o título genérico de Cozido à Portuguesa.

Cozido à Portuguesa no Salão Nobre do Teatro Nacional D.
Maria II (foto Teresa Cavalheiro)
Programa
de música portuguesa [pdf]
Diogo
Dias Melgás (1638-1700)
· Adjuva nos Deus
[motete], Tractus Pro Feriis
Quadragesimae
Miguel
Andrade
(sec. XVII)
· Puestos estan
frente a frente [romance]
[in “Miscelania”
de Miguel Leitão de Andrade, 1629]
Soprano
convidado: Ana Sacramento
Carlos
Seixas
(1704-1742)
· Sinfonia em Si
bemol maior
Allegro – Adagio – Minuet (Allegro)
· Concerto em Lá
maior [concerto para cravo] {1724?}
Allegro – Adagio – Giga (Allegro)
Solista em cravo Clavinova: Vasco
Lourenço
Manuel
Cardoso (Frei) (c.1566-1650)
· Missa
Philippina (1636)
Kyrie – Gloria – Credo – Sanctus
– Benedictus – Agnus Dei I – Agnus Dei II
Soprano convidado: Ana Sacramento
Hugo Ribeiro
(*1983)
· Gestos II: conversas sobre um contorno (2006)
(encomenda do
Ensemble JER)
Solista
em clarinete: Paulo Guia
José Eduardo Rocha
(*1961)
· Prelúdios & Fugas Sobre o nome de Carlos Paredes
(2003)
ENSEMBLE JER_Os Plásticos de Lisboa
José Eduardo
Rocha (JER) – concertino
(Melódica
soprano Hohner I, violino Chicco I, maestro em Gestos II).
Nuno Morão – obbligato
(carrilhão
[Vibratones & sinos rústicos], caixa de rufo militar, melódica
soprano Hohner II, trompete Bontempi, percussões I [bass drum,
metalophone Sonor, sinos rústicos], violino Chicco II)
Susana Ribeiro –
ripieno I
(melódica alto Parrot, Clavinova, orgão Antonelli,
percussões II [triângulo, vibratones, temple blocks, vibraslap,
flexatone, sinos rústicos],wind
chimes chineses)
Vasco Lourenço –
ripieno II
(orgão
Antonelli, orgão Bontempi, Clavinova, Yamaha VSS-200,
piano)
Paulo Guia
– continuum
(clarinete em Si bemol, clarinete baixo em Si bemol,
wind chimes chineses)
Ana
Sacramento –
superius (soprano convidado em “Puestos estan
frente a frente” e “Missa Philippina”)

Ensemble JER no TNDM II (foto Teresa Cavalheiro)
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Notas sobre o programa Cozido à Portuguesa
Trata-se mais de um problema de “culinária” musical do que de um
problema de deglutição, e aqui começam a surgir ambiguidades das
quais se pode tirar partido lúdico e poético. Cozer à portuguesa
seria – portanto – compor ou fazer música à portuguesa, daí um
programa exclusivamente constituído por obras de autores portugueses.
Não nos esqueçamos que, para a maior parte dos sectores da sociedade
portuguesa, a música erudita portuguesa, se não é completamente
desconhecida ou ignorada, é quase um tabu. Para nós é totem, mas como
a questão nacionalista em si não nos interessa mesmo nada, o que nos
move é a questão intelectual e artística, ou melhor: o fetiche
estético regional e as possibilidades semânticas, semióticas e
semíticas do mesmo, na área do espectáculo cénico musical.
Deseja-se, assim, chamar a atenção para diversas obras-primas da
música portuguesa, geralmente tão negligenciada, mesmo por sectores
artísticos e intelectuais, e partilhar democraticamente, com o público
actual, especializado ou não, a descoberta das suas belezas, da maneira
como está cozinhada ou confeccionada, mesmo que seja através de meios
tão “impuros” e tão pouco “canónicos” como são os
instrumentos, os arranjos e as versões sui generis
(tendenciosamente humorísticas) do Ensemble JER.
Daí a presença significativa no nosso programa de compositores da
famosa “Escola de Évora” (Manuel Cardoso e Diogo Melgás,
ambos compositores nascidos e formados no Alentejo quinhentista e
seiscentista, e ambos representantes máximos dessa lendária escola de
polifonistas). Mas também a reflexão fantasiosa sobre uma hipotética
“Escola de Coimbra”, atravessando séculos, com a apresentação de
obras primas de Carlos Seixas e a homenagem do Ensemble JER a Carlos
Paredes.
De Seixas, talvez o nosso compositor barroco mais original, e o
único que não foi bolseiro em Itália por patrocínio de D. João V (o
que posiciona a escolaridade coimbrã como significativa – Seixas
terá estudado com o pai, como mais tarde Paredes também), executamos a
sua deliciosa Sinfonia em Si bemol e o célebre Concerto em Lá
Maior para cravo.
Toda a gente já ouviu esta última obra sem querer – como fundo
sonoro para dar cor local – em programas televisivos sobre a história
ou a geografia de Portugal (tipo Universidade Aberta ou Prof. Hermano
Saraiva). Uma tese, sustentada por muitas personalidades da música
portuguesa, é a de que este Concerto em Lá Maior talvez seja o
primeiro concerto para cravo da história da música universal (uma
autêntica “revolução do cravo”). Também no seu andamento lento,
há quem se tenha dedicado a descobrir antecipações do fado de
Coimbra, sugeridas na melancolia melódica, nas harmonias acres e nos
arpejos idiomáticos, que “lembram” a guitarra portuguesa e um quasi
Carlos Paredes avant la lettre.
Outros paradigmas daquilo a que, geralmente, se chama o
imaginário português, também são contemplados no nosso programa,
como o fabuloso romance seiscentista Puestos estan frente a frente,
sobre a batalha de Alcácer-Quibir e D. Sebastião, composto logo a
seguir à tragédia nacional, da autoria (a letra e talvez a música, os
investigadores não têm a certeza) de Miguel Leitão de Andrade,
que terá participado em pessoa – portanto uma testemunha privilegiada
– no malogrado evento (uma peleja tipo o recente Mundial de Futebol),
ou a Missa Philippina, de Frei Manuel Cardoso, dedicada ao rei
Filipe IV de Espanha, quatro anos antes da “Restauração”
(curiosamente, a mesma palavra significa a área profissional dos “restaurantes”!).
Estranha figura de artista, a de Frei Manuel Cardoso, carmelita
calçado, amigo e professor de composição do futuro D. João IV, a
aceitar uma encomenda vinda expressamente de Madrid, com cantus
firmus previamente fornecido e de repetição obrigatória e que é
constituído muito simplesmente por um tema musical em que a letra se
resume a enunciar o nome do rei espanhol em latim: Philippus Quartus.
Na elaboração da missa, e de acordo com a tradição já um pouco
anacrónica para a época, o cantus firmus, uma espécie de viga
melódica estruturante que sustenta o edifício polifónico, será
constantemente apresentado na tónica, na sub-dominante ou na dominante
(como em qualquer vulgar canção pop).
Na nossa versão, só o cantus firmus é cantado, o resto das
partes vocais que enunciariam o texto litúrgico, e que disfarçariam o cantus
firmus – era assim que se fazia na Europa desde a Ars Nova
– foram transformadas em partes só instrumentais, o que torna a
situação ainda mais absurda, porque omitindo o texto religioso,
evidencia-se o que estava dissimulado, e que é a repetição obsessiva
do nome do rei castelhano. É verdade que admiravam em Madrid o trabalho
de Frei Manuel Cardoso e, também, naquela época, ele não se podia dar
ao luxo de recusar uma hipótese de patrocínio para a edição das suas
obras (de facto a Missa Philippina vem incluída no mais vasto
volume Liber Tertius Missarum).
Mas para o Padre José Augusto Alegria, Frei Manuel Cardoso deixaria
uma marca oculta da sua independência na missa encomendada. Vale a pena
citar toda uma passagem sobre o assunto, no prefácio à primeira
edição moderna (1973) do Terceiro Livro de Missas:
“Aproveitando a liberdade artística de escrever um
segundo Agnus Dei com uma voz oculta, i. e., não grafada nas pautas, o
compositor marcou a entrada dessa voz oculta com a indicação do texto
que seria este: Ostende nobis patrem. Philippe qui videt me, videt et
patrem, o que em português quer dizer: «Mostra-nos o Pai. Filipe, quem
me vê a mim, vê também o Pai ». Ora, se a voz, no aspecto técnico,
era oculta, mais oculta seria a significação exacta do texto proposto
na Corte madrilena, o mesmo não acontecendo em Portugal, visto que
tinha ficado célebre o sermão proferido pelo padre Luís Álvares em
dia de S. Filipe, na presença de Filipe II. Neste sermão, o orador,
servindo-se daquele texto latino, voltou-se para o Monarca,
mostrando-lhe que a «representação era o direito que preferia a todo
o outro, e que aquele que o ofendia tiranizava a justiça». De modo que
Frei Manuel Cardoso, neste passo da missa, retira o nome do Rei e com o
mesmo tema faz cantar sem interrupção aquelas palavras que são
referência directa aos direitos dinásticos da casa de Bragança”.
Obviamente, não nos demitimos, na nossa versão, de revelar a
enigmática voz oculta com que termina a missa! Concluindo, o bom,
severo e estóico carmelita apenas funcionou como qualquer artista
contemporâneo, um Arlecchino servidor de dois amos. Os grandes
artistas são assim, e Manuel Cardoso, nascido em Fronteira, é de facto
um grande compositor europeu. Hoje em dia, as suas obras são
interpretadas um pouco por todo o mundo, pelos intérpretes mais
conceituados. A Missa Philippina, uma pequena maravilha na linha
do melhor Josquin (ainda que com cem anos de atraso), é pouco
interpretada, por isso, para prestar um serviço à nação, nós
decidimos revelá-la ao público moderno.
Para terminar estas breves longas notas, apenas uma referência à
parte mais contemporânea do nosso programa, pois, de facto, a fatia
mais grossa do menu é música portuguesa dos séculos XVII e XVIII. O Ensemble
JER já tem uma tradição regular de encomendar e estrear obras de
compositores contemporâneos. Este ano convidou-se o Hugo Ribeiro
(quase um compositor em residência no Ensemble, pois foi membro do
grupo na temporada de 2004/2005) a presentear-nos com uma peça para a
nossa formação, que ele conhece tão bem (além de pianista, o Hugo
também se dedicou com carinho aos toy instruments). Este jovem
compositor português está agora ausente em Londres, a fazer mestrado
em composição com Simon Bainbridge, mas licenciou-se em composição
na Escola Superior de Música de Lisboa, onde estudou com Luís Tinoco,
Christopher Bochmann e António Pinho Vargas, entre outros, e já teve
peças tocadas pela Orquestra Gulbenkian e outras formações de
prestígio.
Em suma: música das escolas mais canónicas de composição em
Portugal tocadas pelo Ensemble menos escolar e canónico da pátria de
Camões. Um típico “Cozido à Portuguesa”. Divirtam-se.
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