|
A Missa era a forma musical mais importante para os compositores
da Ars Nova e Renascença. Durante a Idade Média, a música tinha evoluído da
monodia gregoriana para a polifonia vocal e instrumental. Em termos modernos,
diríamos que a missa era o contexto onde os compositores aplicavam mais
significativamente os seus esforços criativos.
Algumas missas caracterizavam-se por usarem um tema base - o cantus
firmus - geralmente tomado de empréstimo, e que funcionava como
uma espécie de viga melódica sobre a qual se construía o edifício polifónico.
A fonte podia ser sagrada ou profana; depois era isorritmicamente tornada
irreconhecível e colocada, com o texto litúrgico, nas vozes interiores (tenor
e alto) ao longo da missa, unificando assim as várias partes: Kyrie, Gloria,
Credo, Sanctus & Agnus Dei.
No século de Joana D`Arc, em plena guerra dos 100 Anos, com a soldadesca à
solta pelos campos, estava na moda em toda a Europa a canção popular “L`homme
armé”, que, segundo alguns, era de origem inglesa e da autoria de
Robert Morton. Esta canção serviu de cantus firmus a muitas missas
que passavam a designar-se pelo nome da melodia que tinham por base. (Na nossa
versão, o cantus firmus é teatralizado.)
Quase todos os grandes compositores renascentistas entre os séculos XV e XVI
- Dufay, Ockeghem, Josquin Desprez, Obrecht, Palestrina, entre outros -
escreveram missas do homem armado. Mas a tradição continuou
até à actualidade com compositores como Peter Maxwell Davies e Thierry Pécou.
|
|
Guillaume Dufay, um dos primeiros grandes mestres franco-flamengos, foi pioneiro no uso de canções populares em missas de
cantus firmus, como a missa L'Homme Armé (c. 1450), obra que sobreviveu através de livros iluminados. Mas cinquenta anos depois, já na era da música impressa, Josquin Desprez - “o príncipe dos compositores” - inovou a tradição, alargando o
cantus firmus às outras vozes, em missas como L'Homme Armé (Sexti Toni), publicada em 1502 pelo editor Petrucci de Veneza.
São estas as missas do Homem Armado que “celebramos” cénica e musicalmente, em arranjos especiais com instrumentos de plástico e brinquedos musicais.
- Leonor Areal, triplum
Nuno Silva, duplum
- Alexandre Pedro, cantus
José Eduardo Rocha, altus
José Lopes, motetus (l'homme armé)
- Francisco Suspiro, tenor
Armando G. Pereira, bassus
Margarida Marecos, superius
|
IMPRENSA
in Público, 30-7-99
Ensemble
JER na Sé de Lisboa
Missa com
Soldadinhos de Plástico
Por FERNANDO MAGALHÃES
Sexta-feira, 30
de Julho de 1999
O
Ensemble JER interpreta esta noite na Sé de Lisboa, pelas 22h, a "Missa do
Homem Armado", de Guillaume Dufay, um compositor franco-flamengo do século
XV. Dufay foi pioneiro no uso das canções populares em missas de Cantus Firmus,
em que a mesma melodia servia de base à totalidade da peça. O concerto é o último
desta temporada organizado pela Galeria Zé dos Bois. Um óptimo recital de música
antiga em perspectiva num recinto a condizer.
Contudo, para os mais académicos, um aviso: é possível que se sintam
chocados com a demonstração de originalidade e criatividade do universo
musical que, desde 1990, ano da sua fundação, JER e o seu grupo de músicos/performers
percorrem. Porque um concerto do Ensemble JER constitui inevitavelmente um
manifesto de humor - no sentido mais elevado do termo, de completa transfiguração
do mundo - em forma de espectáculo e vice-versa. Jogo ambíguo que espanta,
choca e atrai. Por isso convirá responder a algumas perguntas prévias.
O que é um saxofone JER? Quem é Wagner-JER? O que é, e para que serve, o
Ensemble JER? É preciso Jer para crer. JER é José Eduardo Rocha, compositor,
arranjador, ideólogo, frequentador assíduo das lojas de brinquedos e mentor do
Ensemble com o seu nome, o Ensemble JER, também designado por Os Plásticos de
Lisboa.
O Ensemble JER foi incumbido de uma missão (para mais pormenores consultar o
endereço http.//www.ip.pt/~ip267096/home.htm). É um "grupo de artistas-músicos
especialmente formado para interpretar um reportório criado e dirigido por José
Eduardo Rocha e destinado a uma organologia especial que inclui instrumentos de
plástico, brinquedos musicais, percussões e outros". Ao vivo, os
elementos do grupo tanto podem aparecer vestidos como os antigos soldados
romanos, como envergar mini-fraques vermelhos ou camisolas às riscas no estilo
Freddy Kruger.
Um saxofone JER, percebe-se agora, é um instrumento de plástico, da marca
Chicco ou Antonelli, mas nem por isso menos nobre que um reluzente Selmer
submetido a banho de prata. Quanto a Wagner-JER é "Volkswagner",
clone de plástico de "Os Mestres Cantores de Nuremberga", obra do
genial compositor romântico Richard Wagner, cuja versão-JER teve a sua estreia
mundial em 1996 no Teatro Maria Matos. Entre as composições originais de JER
incluem-se "Futebol", "Sinfonia Náutica" e "Piccola
Sinfonia Pimba".
Esta noite será apresentada a missa "L'Homme Armé", de Guillaume
Dufay, compositor da Renascença cuja importância iguala a de Josquin des Prés
ou Palestrina. "L?Homme Armé", canção muito em voga durante a
Guerra dos 100 anos, com a Europa pejada de soldados, serviu de "cantus
firmus" a uma série de missas que a tomaram como fonte de inspiração.
Dufay foi um dos primeiros a fazê-lo.
Composta em 1450, a "Missa do Homem Armado" de Dufay está
subdividida em cinco movimentos: "Kyrie", "Gloria",
"Credo", "Sanctus" e "Agnus Dei". José Eduardo
Rocha, o seu ensemble (Francisco Suspiro, Nuno Silva, José Lopes, Alexandre
Pedro, Leonor Areal e Armando Pereira) e a cantora soprano convidada, Margarida
Marecos, encarregar-se-ão de extrair dela o supra-sumo da espiritualidade,
através do plástico, material sagrado por excelência.
Na primeira parte será apresentada uma "Suite Transmontana",
composta por JER no ano passado. Ciclo de sete danças/"quadros que evocam
uma viagem fabulosa", inspirada numa estadia de José Eduardo Rocha em Trás-os-Montes.
"O castelo de Celorico", "O auroque de Foz Côa", "Rio
de Onor", "A barragem da Serra Serrada" ou "A anta de Zedes"
são alguns dos andamentos desta "suite" comprovativa de que a própria
Natureza não seria tão bela sem a presença do plástico. |