“No meu lugar todos fariam o
mesmo”
(Roberto,
fuga final da cena 13 de Os Fugitivos)
Crónica
Quando senti
que chegara o momento de compor a minha primeira ópera a sério, decidi
contactar o Rui Zink (que conheço já vai para vinte anos), porque pensei
que ele era a pessoa certa para escrever um libreto actual e estimulante,
capaz de interessar um público de hoje e funcionar como uma espécie de Zeit
Opera (ópera do momento), como dizem os alemães (que também chamam zink
às cornetas).
Ele
entusiasmou-se logo com a ideia (estando a par da importância histórica
dos libretistas) e deu-me a ler uma peça de teatro, que já tinha
escrito, chamada A Fuga do Egipto (isto em Julho de 2001). Apesar
de acharmos que a peça precisaria de uma adaptação para libreto (que
raramente é igual a uma peça de teatro), o tema parecia cheio de
possibilidades musicais e as personagens adequavam-se perfeitamente à
distribuição convencional dos tipos humanos pelas vozes líricas. Além
de tudo, ter um político, uma mulher guarda-costas e um toxicodependente
num drama musical não é todos os dias...
Os
acontecimentos precipitaram-se a partir do momento em que apresentei a
proposta no Teatro da Trindade, tendo o Dr. Carlos Fragateiro apoiado,
desde o início, a ideia de uma ópera que fosse simultaneamente
experimental e popular. Em Setembro do mesmo ano, desenhei um quadro
dramatúrgico-musical (ver fig.1), em que definia os personagens, a sua
tipologia vocal, o tipo de orquestra e alguns aspectos de semiótica
musical e dramática. Com os contratos assegurados, o Rui começou a
escrever o libreto em inícios de 2002, depois de termos acertados o nome
da ópera e das personagens, a estrutura em 2 actos e 13 cenas, e os
contextos que favoreceriam os números musicais (recitativos, ariosos,
cavatinas, árias, duetos, cenas de conjunto, etc.). Aparentemente uma
abordagem clássica do género.

Análise
Enquanto o
Rui ia escrevendo o libreto, eu ia paralelamente definindo os materiais
musicais, que iria empregar na composição. Comecei por inventar, usando
o meu método pessoal de notação alfabética, leitmotivs melódicos
e rítmicos deduzidos dos nomes das personagens, e sujeitos a uma técnica
especial de transformação, que inclui a rotação, a translação, a
inversão, a permutação, a retrogradação etc. (ver fig.2) - uma espécie
de bilhete de identidade musical de cada personagem. O mais reconhecível
de todos ao longo ópera é o de Marta. A quarta rotação do motivo
Ferlucci dá Luccifer (o que já por si era um anagrama). Os padrões
resultantes permitiriam depois criar linhas unificadoras no tecido musical
global.

(Fig.2)
Assim cada
personagem é portador de uma bagagem musical (de que não tem consciência)
composta por material temático com origem no nome, apêndices musicais
(constituídos muitas vezes por citações ou por gestos habituais),
harmonias, tonalidades ou modos específicos (grosso modo o político
é associado à tónica, a segurança, à dominante, os pais, às
relativas maior e menor, e entre o diabo e a louca do consumo, a “falsa
relação de trítono”). Outros aspectos participam da mesma lógica,
como a pistola de Marta, as onomatopeias e marcas de Elisa, ou as secções
de carácter dodecafónico quando, no segundo acto, o toxicodependente se
revela diabo. Também existe uma
relação simbólica (nem sempre sistemática) com os instrumentos da
orquestra: Roberto é associado ao piano, Marta à flauta, Cremilde ao
clarinete, Alfredo ao fagote, Ferlucci ao trompete e Elisa à tuba.
Além disso,
outros elementos musicais participam na trama geral. Há indicações de
metrónomo com intenções poéticas, tipo 115, 69 ou 55,5 (não perceptíveis
pelo ouvinte), pedais da tuba (com a nota ré mais grave) que representam
o som do navio e clusters no piano a lembrar que tudo começou com
um desastre. Na percussão abundam os sinais sonoros como o “cavalo”
do toxicodependente (representado pelo galope nos temple blocks), o
dinheiro (representado pelas intervenções do triângulo) ou o mar
(representado pelas rebentações do pau de chuva). Também não podiam
faltar os telemóveis, sugeridos de várias maneiras no decurso da acção.
Há bastante
material “pedido de empréstimo” com funções dramáticas (citação,
paráfrase, paródia, alusão, homenagem, puro roubo, relíquia pessoal,
despojo simbólico, etc. – o que quiserem chamar-lhe). A lista é
demasiado longa para ser aqui apresentada, prefiro convidar o público a
tentar o jogo de adivinhação, numa área que também se relaciona com a
nossa memória colectiva. De certeza que muitos irão perceber a citação
no final da cena oito (apesar de laboriosamente transformada) - eis um
caso de evidência que poderá ser polémica. De qualquer modo, as fontes
são muito diversas e democráticas e também existem citações para
especialistas. Não obstante, como a maior parte do material é original,
prefiro também convidar o público a tentar o jogo da descoberta - num
discurso geralmente poli-estilístico, neo-clássico e irónico de base.
Crónica
Comecei a
compor compulsivamente Os Fugitivos em princípios de Abril de
2002, logo que o Rui me entregou o primeiro acto, que concluí em Outubro,
passando ao segundo acto, que terminei em Julho de 2003 (15 meses ao todo,
um prazo record para uma ópera contemporânea com 2 horas de duração).
Escrevi a partitura ao piano, no estirador e no computador. Preocupei-me
com o equilíbrio entre os dois actos, com a dramaturgia musical de cada
cena, com o estilo melódico e prosódico adequado a um português de vulgata,
com a criação de prelúdios e interlúdios fundamentais para a atmosfera
do drama, com funções de contraste e repouso, com o corte e costura
determinantes da progressão dramática e musical, e com todo um trabalho
complexo de orquestração para tirar o máximo rendimento de uma
orquestra pequena (fl., cl., fag., tre., tub., perc., pno., vl.I, vl.II,
vla., vlc., cb.).
Comecei com
uma Abertura que descreve um acidente de viação, e acabei com a Fuga
Final - uma ópera com este nome não podia dispensar o uso emblemático
da forma mais consagrada pela tradição clássica. Pelo meio, em dedicação
quase exclusiva, horas e horas de combate, para arquitectar este dramma
per musica, convivendo diariamente com estes seis personagens loucos
que quase tomaram conta de mim. Mas agora que entreguei a obra nas mãos
dos intérpretes que a vão defender, tenho-me dedicado a tarefas como:
revisões e correcções, extracção de partes para a orquestra, reuniões
com os meus infatigáveis colaboradores e o magnífico elenco, ensaios –
enfim, a ver o espectáculo a nascer. É mais uma experiência única a
que estou a viver e já me apetece escrever uma nova ópera. “No meu
lugar todos fariam o mesmo”.
José
Eduardo Rocha, Fevereiro de 2004
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