JER

 Volkswagner

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VOLKSWAGNER

José Eduardo Rocha (1992-96)

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Uma adaptação sui generis da ópera Os Mestres Cantores de Nuremberga de Wagner, e de textos de Nietzsche, para um grupo de actores, cantores, instrumentistas e um Ensemble especial de instrumentos de plástico.

Volkswagner - que literalmente significa "Wagner do povo" - é um divertimento cénico-musical, uma espécie de singspiel em forma de suite, a partir de uma ópera de Wagner - a sua comédia musical Os Mestres Cantores de Nuremberga (1868) - e de textos de Nietzsche extraídos de O Caso Wagner (1888).

Excertos vocais e instrumentais, transcritos para uma formação insólita (soprano, instrumentos de plástico, trombone e teclas); cenas do libretto adaptadas a teatro (às vezes em versão livre) e textos provocatórios do filósofo - atribuídos ao personagem Beckmesser - eis os "materiais" que, nesta versão para 14 intérpretes, são relacionados segundo uma determinada lógica dramática e musical.


Sinopse do "argumento"

Tudo está bem quando começa bem, a célebre abertura está no lugar certo. Por uma estranha simbiose, o Ensemble JER e os músicos convidados são simultaneamente a orquestra e a "corporação dos Mestres Cantores" - Escola de Arte onde também há crianças aprendizes e onde pontifica o nietzscheano Beckmesser: «Andar agarrado a Wagner, paga-se caro!»

Em breve saberemos que um jovem cavaleiro, vindo de fora da cidade, pretende ser admitido na Guilda e adquirir o grau de Mestre cantor, para assim poder conquistar o prémio de canto daquele ano, na festa do S. João. O prémio é nem mais nem menos que Eva, a filha de Veit Pogner - respeitado burguês de Nuremberga e secretário geral da corporação.

Apesar de ser o candidato natural, e de contar com o apoio tácito de um lobby de Mestres (nomeadamente de Hans Sachs), Walther, o jovem cavaleiro da Francónia (nesta adaptação, um soprano), tem de enfrentar um terrível rival: o perigoso Beckmesser, que além de candidato potencial, desempenha na assembleia dos Mestres, o cargo de anotador de erros, ou "censor"...

 


Personagens e intérpretes

O Triângulo amoroso (artistas convidados)

Beckmesser / Nietzsche - Paulo Lages, actor
Eva - “a causa wagneriana” - Isabel Gaivão, actriz
Walther - um jovem cavaleiro - Margarida Marecos, soprano

Os Mestres Cantores (Ensemble JER)

Hans Sachs - José Eduardo Rocha, direttore
Konrad Nachtigall - Francisco Suspiro, concertino
Balthasar Zorn - Armando G. Pereira, ripieno
Veit Pogner - José Lopes, obligatto
Kunz Vogelgesang - José Manuel Freire, continuum
Ortel / Schwarz - Nuno Silva, estagiário
Aprendiz de Niklaus Vogel - Leonor Areal, estagiária

Instrumentistas convidados

Ulrich Eisslinger - Filipe Pinheiro, trombone
Augustin Moser - Hélder Entrudo, teclas

Os Aprendizes (Crianças)

David, o aprendiz de Hans Sachs - André Cardinali
Madalena, outro aprendiz - Laura Areal


O Volkswagner foi apresentado no Teatro Maria Matos, integrado no festival Monumental 96 (Lisboa); em 1997 no pequeno auditório do Centro Cultural de Belém (Lisboa); e em 2000, numa nova versão,  na Fábrica da Pólvora de Barcarena e na Expo 2000 de Hannover (Pavilhão de Portugal).

IMPRENSA

in Expresso, 14-10-2000 
Brinquedos a sério
VOLKSWAGNER
Amanhã, 17h, Fábrica da Pólvora (Barcarena)
AMANHÃ à tarde, no espaço Lugar Comum, da Fábrica da Pólvora de Barcarena (concelho de Oeiras), tem lugar um espectáculo pelo Ensemble JER - Os Plásticos de Lisboa, agrupamento fundado e coordenado pelo compositor José Eduardo Rocha, que conta com uma característica no mínimo original: os seus oito elementos tocam instrumentos de plástico. Carregando com a bagagem de um percurso que já vai em 10 anos e que conta com várias peças de teatro musical - como A Saga da Formiga (1992), Futebol (1995-97), Volkswagner (1996), Sinfonia Náutica (criada para a Expo-98) e Viagens na Minha Terra (1999/2000) - o Ensemble JER tem adaptado obras do repertório erudito às sonoridades dos diversos «brinquedos».

 

José Eduardo Rocha, membro fundador do Ensemble JER

 

Sem quaisquer apoios fixos a nível institucional, o grupo mantém-se firme no seu propósito de dar continuidade a um trabalho que permite a José Eduardo Rocha explorar novas fontes sonoras e dar asas a um projecto «que parte de um princípio poético, se bem que a vertente irónica seja também importante». Desconstruir a fachada dos concertos convencionais é uma das ideias que sustentam e justificam a «transgressão» que implica «fazer musica a sério com instrumentos de material plástico». O factor visual, sempre presente, prende-se com a formação de José Eduardo Rocha enquanto artista plástico (especialmente no campo da ilustração) e contribui para «criar uma atmosfera lúdica» com «feições circences e jogralescas» que complementam o trabalho musical propriamente dito.

Este é, no entanto, «o essencial, aquilo que legitima a existência de todo o resto». E se o humor e a comicidade saltam desde o primeiro momento à vista como factores determinantes de um certo impacto visual, «a música é o guia». Por trás daqueles escassos 60 minutos que dura cada apresentação, há «muito papel, lápis e borracha». A fidelidade às partituras originais abordadas constitui um factor que o compositor sublinha com orgulho.

Pela sua parte, o Ensemble JER apresenta «contornos quixotescos»: «Consegue manter-se fora das etiquetas, dos rótulos. Um dos nossos cavalos de batalha é sermos inclassificáveis. Ninguém está à espera que se faça música erudita com capacetes e com cornos», remata.

A Oeiras, o Ensemble JER leva Volkswagner , um espectáculo dividido em duas partes, nas quais se confrontam recriações de duas obras representativas de diferentes momentos históricos - a Renascença e o século XIX - mas que, curiosamente, se tocam na temática e no espírito com que foram escritas. O programa abre com uma Missa do Homem Armado , de Josquin Desprez, e fecha com a suite Volkswagner , composta por excertos da ópera Os Mestres Cantores de Nuremberga . A familiaridade entre ambas as peças, diz José Eduardo Rocha, «tem a ver com o facto de esta ópera ser uma das primeiras tentativas de arcaísmo musical, em que Wagner quase caricaturou a Renascença».

Para além dos músicos que fazem parte integrante do conjunto - Franscisco Suspiro, Nuno Silva, José Lopes, Alexandre Pedro, Leonor Areal, Armando Pereira e Laura Groz -, participam a soprano Margarida Marecos, o trombonista Filipe Pinheiro e o pianista Hélder Entrudo. Um pormenor curioso que levanta o véu da atmosfera que se vive no palco: no Agnus Dei da Missa, um dos percussionistas faz malabarismos com as maracas, cumprindo ao mesmo tempo uma função lúdica e musical.

Este espectáculo viaja para a Expo-2000 de Hannover, para duas actuações agendadas para os dias 20 e 21 de Outubro. Para os mais curiosos, aqui fica um endereço on-line onde se pode encontrar informação do grupo e inclusive ouvir alguns fragmentos musicais do seu repertório: www.ip.pt/ïp267096/index.htm .

L.L.